Finas gotículas de chuva penetravam como agulhas geladas na face descoberta de Lúcio, enquanto fumava lentamente seu primeiro cigarro do dia. Estava frio demais para apoiar-se no mourão gelado da cerca do campo de futebol da fábrica, enquanto esperava o mugido rouco da velha sirene a decretar 5:45 da manhã. Preferiu meter uma das mãos no bolso traseiro de sua jeans enquanto a outra se ocupava em alternar o cigarro entre a boca e o ar gelado do início de junho. Podia sentir nas nádegas aquecidas cada um dos cinco dedos enrijecidos em busca de um pouco de calor.
Por ele passava o pessoal do turno que saía, em meio à um turbilhão de vapores condensados de corpos quentes enquanto falavam baixinho, como que absurdamente respeitando o horário da madrugada. Lúcio sorriu sabendo que dentro de quatro minutos a sirene despejaria seus 1700 decibéis sobre os próximos cinco quilômetros daquela zona industrial, e que as fábricas vizinhas fariam o mesmo com talvez alguns segundos de diferença, transformando a sagrada madrugada num inferno sonoro capaz de acordar os mais profundos comatosos.
De brincadeira imaginava mesmo um monte de leitos de hospital dispostos à beira das fábricas, aguardando o toque da "trombeta da ressurreição", como ele chamava aquele momento. Pulando das camas como gatos assustados os doentes seriam recebidos com lágrimas pelos emocionados familiares, que depois de refeitos da grande emoção jogariam beijos para as fumarentas chaminés enegrecidas. Não podia deixar de imaginar isto toda manhã que ouvia o pessoal cochichando baixinho, segredando seu cansaço e planejando uma manhã preguiçosa de cortinas fechadas e cobertores aquecidos, quem sabe ao lado do ser amado, e se não amado, pelo menos útil para este fim.
Estes pensamentos esvaneciam-se junto com a última baforada de fumaça acre a deixar os pulmões e a mente de Lúcio, enquanto tomava o caminho contrário da procissão solene, ora esbarrando em ombros sonolentos à direita e à esquerda e vislumbrando por sobre o topo das cabeças o portal iluminado de sua seção. Consultou seu relógio, acendendo o mostrador azul fantasmagórico e constatou que ainda podia usufruir um minuto e meio da reverente madrugada.
Sentou-se à beira do caminho de paralelepípedos, onde agora uma procissão diferente tomava a direção contrária dos silentes devotos. Esta era mundana e ruidosa, cheia de assobios maliciosos e bitucas cintilantes sendo lançadas nos troncos congelados das árvores, desfazendo-se em folguedos amarelados. Passavam serpenteando por Lúcio que via o mundo transmutar-se diante de seus olhos. Do silêncio ao ruído, do segredo à gritaria, da reverência à galhofa, do frio ao calor.
Esta era agora uma irreverente madrugada, e não pôde deixar de pensar no ilimitado poder que o ser humano tem de moldar e impregnar o mundo com seus sentimentos e disposições internas. De mudar a ilusão da realidade e colocar nela o retrato de seus sentimentos e conceitos, de sua alegria e de sua tristeza, de sua paz e de seu conflito. Nisto a sirene começou a girar seu mecanismo num tom grave e crescente e Lúcio fugiu para o interior de sua seção protegendo os ouvidos, deixando a madrugada lidar com suas impressões e o despertar de seus doentes imaginários.