terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

A madrugada

Finas gotículas de chuva penetravam como agulhas geladas na face descoberta de Lúcio, enquanto fumava lentamente seu primeiro cigarro do dia. Estava frio demais para apoiar-se no mourão gelado da cerca do campo de futebol da fábrica, enquanto esperava o mugido rouco da velha sirene a decretar 5:45 da manhã. Preferiu meter uma das mãos no bolso traseiro de sua jeans enquanto a outra se ocupava em alternar o cigarro entre a boca e o ar gelado do início de junho. Podia sentir nas nádegas aquecidas cada um dos cinco dedos enrijecidos em busca de um pouco de calor.

Por ele passava o pessoal do turno que saía, em meio à um turbilhão de vapores condensados de corpos quentes enquanto falavam baixinho, como que absurdamente respeitando o horário da madrugada. Lúcio sorriu sabendo que dentro de quatro minutos a sirene despejaria seus 1700 decibéis sobre os próximos cinco quilômetros daquela zona industrial, e que as fábricas vizinhas fariam o mesmo com talvez alguns segundos de diferença, transformando a  sagrada madrugada num inferno sonoro capaz de acordar os mais profundos comatosos.

De brincadeira imaginava mesmo um monte de leitos de hospital dispostos à beira das fábricas, aguardando o toque da "trombeta da ressurreição", como ele chamava aquele momento. Pulando das camas como gatos assustados os doentes seriam recebidos com lágrimas pelos emocionados familiares, que depois de refeitos da grande emoção jogariam beijos para as fumarentas chaminés enegrecidas. Não podia deixar de imaginar isto toda manhã que ouvia o pessoal cochichando baixinho, segredando seu cansaço e planejando uma manhã preguiçosa de cortinas fechadas e cobertores aquecidos, quem sabe ao lado do ser amado, e se não amado, pelo menos útil para este fim.

Estes pensamentos esvaneciam-se junto com a última baforada de fumaça acre a deixar os pulmões e a mente de Lúcio, enquanto tomava o caminho contrário da procissão solene, ora esbarrando em ombros sonolentos à direita e à esquerda e vislumbrando por sobre o topo das cabeças o portal iluminado de sua seção. Consultou seu relógio, acendendo o mostrador azul fantasmagórico e constatou que ainda podia usufruir um minuto e meio da reverente madrugada.

Sentou-se à beira do caminho de paralelepípedos, onde agora uma procissão diferente tomava a direção contrária dos silentes devotos. Esta era  mundana e ruidosa, cheia de assobios maliciosos e bitucas cintilantes sendo lançadas nos troncos congelados das árvores, desfazendo-se em folguedos amarelados. Passavam serpenteando por Lúcio que via o mundo transmutar-se diante de seus olhos. Do silêncio ao ruído, do segredo à gritaria, da reverência à galhofa, do frio ao calor.

Esta era agora uma irreverente madrugada, e não pôde deixar de pensar no ilimitado poder que o ser humano tem de moldar e impregnar o mundo com seus sentimentos e disposições internas. De mudar  a ilusão da realidade e colocar nela o retrato de seus sentimentos e conceitos, de sua alegria e de sua tristeza, de sua paz e de seu conflito. Nisto a sirene começou a girar seu mecanismo num tom grave e crescente e Lúcio fugiu para o interior de sua seção protegendo os ouvidos,  deixando a madrugada lidar com suas impressões e o despertar de seus doentes imaginários.

Sentido

 Que mais quer a seta livre
 Senão deixar o espaço e
 No destino deitar abraço.
 Da aljava esquece o pouso,
 Da corda tesa alça vôo.

 Não considera tempo nem a
 Palma, que rouba da madeira
 A alma, com golpes certos
 Afila a forma que à seu
 Serviço o desejo adorna.

 Sou eu a seta que destino
 Fez madeira e vida obrou
 Desta maneira, que viveu
 Alheio o fluir do tempo e
 Nos lugares seu momento.

 Só sou quando a ti abraço.
 Ao nada deixo a sombra do
 Meu rastro, pois tu és o
 Alvo, senda, a memória,
 Da minha vida a história.

Novo nome

 Tu és praia, eu mar.
 Avanço e retrocedo sobre
 A pele clara. Te mostras
 E escondes na sombra azul.
 Te tomo e te devolvo,
 Tu me salgas e acalmas.
 
 Tu és ave, eu ar.
 Sou o rio que percorres,
 Tu o viajante que me dá
 Nome. Te suspendo pelos
 Dedos, me acaricias no teu
 Nado, passo alado.
 
 Tu és chama, eu madeira.
 Eu te canto, tu danças
 Em meu corpo, te beijo
 E tu me abraças. Estalo
 Um riso e tu brilhas.
 Alguém nos olha e já não
 Somos? Tolice, tornamos.
 
 Nos chamam calor, luz,
 Fumaça. Que importa a
 Desinência?
 Ela nomeia a mesma e
 Inseparável existência.

Em tudo

 No vário fluido que chamamos
 Memória palmilho teu cheiro,
 Teu rastro, tua certa sombra.
 Te ouço no vibrar de cordas,
 No salto dos arcos. Em moedas
 E linhas que se amoldam à
 Pantomima silente da vida.
 
 Te reconheço no riso alheio
 Que não sabe que te evoca,
 E nos olhos anônimos que
 Não pertencem a seus donos.
 A sinto no vento e na chuva,
 Teus irmãos de pele e dedos.
 
 Te aceno no campo vermelho do
 Entardecer, que me disse ser
 A cor do nosso diário amor.
 E te pressinto no sopro das
 Horas, em que espero o tempo
 Doce de não mais te esperar.

Dela, a boca

Amo tua boca, estampa incerta.
Como amo tua boca aberta.
Fechada.
Quando ri não é mais boca é
Estrada, conduz o riso
De mulher enamorada.
Amo tua boca quando diz tudo,
Nada.
Amo tua boca quando fala,
E dança o tango da palavra.
Quando conta o quanto ama,
Molhada o beijo reclama.
Amo tua boca na minha,
Colada.
Amo tua boca perfumada,
Que me palmilha, percorre,
Palco onde esgrima de línguas
Ocorre.
Amo tua boca no riso parado,
Da figura do Buda retirado.
Amo tua boca em qualquer
Estado.
Amo tua boca que não me
Tem apartado.
Amo tua boca, centro do
Desejo, deslocado.

Refúgio

Eram belas as bordas da folha, ao brilho oblíquo do entardecer. Pela ainda intensa luz era possível perscrutar as nervuras por onde corriam a viva seiva e a água que a conduzia. Ao girar delicadamente para a face mais conhecida, ficava ainda mais evidente a branca penugem que recobria sua superfície e que em dias de chuva recebia as gotas que se lhe ofereciam, dando-lhe um aspecto de veludo molhado e pesado.

Ao toque era fresca e agradável, volumosa e tesa pelas chuvas mais frequentes deste ano que infundiram generosamente por seu interior, trazendo-lhe um vigor invulgar, esperançoso. Nas ditas bordas, agora mais objetivamente, despontavam ínfimos espinhos translúcidos à primeira vista tenazes, mas que ao toque demonstravam-se como cálidos afetos de um bom amigo. Deixando por um instante a proximidade das mãos, o olhar mais afastado sobre a folha revelava a intensidade de seu matiz peculiar, degladiando vigorosamente contra o conjunto simplesmente verde de toda a planta. E vencia; inapelavelmente vencia.

Com um profundo e satisfeito suspiro levantou-se dos joelhos o padre que passara boa parte daquela tarde naquele fresco recôndito, cercado pelas suas paixões as árvores, e que havia descoberto como o poeta a palavra certa, aquela singular folha. Sua fronte brilhava pelo suor do esforço em manter-se naquela posição, mas mesmo esse brilho não se comparava de forma alguma com o prateado de seus olhos, diante de tão bela descoberta. Era como se promovessem o encontro do apaixonado com a paixão e deles extraíssem a energia da própria vida, resultante do amálgama.

Eram nesses momentos que o clérigo perdia a exata noção entre o que era Deus e as coisas, o criador e o criado, o mantenedor e o sustentado. Diante daquela folha, embebido em sua paixão, já não se lembrava se ali estava pela necessidade de Deus ou pela necessidade de conhecer Sua face estampada na perfeição das coisas. Como era bom estar ali! Admirava a quietude essencial, sem alardes das árvores, sua imobilidade. Suas espécies, apesar de algumas conterem poemas sublimes como a folha de seu arrebatamento, eram sempre iguais, todas igualmente belas, todas igualmente altas, igualmente perfumadas, igualmente cobertas, assim eram todas elas.

Seu olhar buscou o horizonte e franzindo o cenho, como se o peso do corpo relembrasse a humanidade de sua missão, logo o prateado das órbitas envelheceu diante da memória de sua paróquia. Num longo e circular movimento declinatório seus já baços olhos encontraram a ponta dos dedos emergindo terrosos das puídas sandálias. E ali ficaram por um incômodo minuto. Cerrou as pálpebras para não chocar o belo lugar com a dor de seu olhar e desejou ardentemente que Deus o tivesse feito camponês e não guia dos homens. Como era suplicioso para ele retornar à sua missão!

Não porque não amasse os homens, nem porque não identificasse a carência humana pelo seu amor e o de Deus. Ele sabia que podia ajudá-los. Entendia-se até privilegiado pelo fato de perceber estas coisas e sentia que devia fazer algo por eles. Tinha se preparado para isso, aceitado imposições e preceitos algumas vezes interiormente questionados, mas tudo fizera por amor ao ser humano e o desejo de torná-lo melhor. Tudo aprendera para despertá-los, todos os métodos e estratégias, todos os argumentos e sua defesas; confrontara o próprio Deus e O questionara a respeito disso. Reuniu este arsenal e se lançou à batalha. Perdeu. Atonitamente.

Descobriu em dor que não bastava amar, se envolver, se dar e se deixar gastar. Viu que mesmo a mais poderosa e inquestionável verdade pode mostrar-se inútil, descartável; que a mais bela forma de amar pode ser rechaçada e esquecida. Foi devastado pela onipotência do não. Entendeu que o amor, expressão da alma, tem um limite material. O próprio homem. Ele pode calma e inquestionavelmente abjurá-lo, apenas dizendo não. Diante da mais poderosa força existente no universo, esta pode simplesmente ser soprada com um desdenhar de ombros.

Não. palavra última. Encerra nela mesma toda sua ação e força, sua autoridade, sua soberania sobre todas as coisas. Nela não existe recurso nem razão. Não pode ser negociada, subestimada, ignorada. Quantas vezes tinha sido obrigado a confrontar-se com essa faceta, que é o cheiro característico do homem. Todos os seres tem o seu odor emblemático, mesmo os seus amores de raízes, porém o mais marcante eflúvio humano é a sua capacidade de descartar sua natureza e necessidades ao negar a oferta de amor.

A lembrança disso trazia ao padre sensações que não queria que ficassem impressas em seu interior. O que mais prezava era o desejo de manter-se inocente e alheio, ao jogo de xadrez que o ser humano chamava vida. Um aperto doloroso fendeu seu peito do pomo ao esterno, pois já se aproximava a hora do serviço.

Arrastando os passos dirigiu-se à capelinha que estava  próxima de seu paraíso particular e após persignar-se, sem ousar levantar os olhos, entrou no velho confessionário de madeira escura. Era a mortalha de sua alma. Logo sentiu a madeira do genuflexório ceder e estalar pela acomodação de alguém ao seu lado. Pela grade podia sentir o perfume da mulher e ficou esperando o dito. "Padre, perdoa-me porque pequei".

Com as mãos espalmadas sobre o grave rosto, deixou sua consciência flutuar pelo campo até a presença daquela folha. Se arrojou sobre ela, penetrou suas nervuras, se perdeu em seu interior. Já não era ele, mas ela. E pôde então sorrir no apertado cubículo enquanto ouvia a voz. Somente assim podia continuar.

Já não sou

Sou feito cada vez mais
De menos de mim; a soma
De todas minhas perdas
Formaram este que calca
Aos pés a sombra estranha.

Deveria ser o que agrada
E encanta, este retrato
Retocado do que desejaram.
Mas o que se mostra é
Inanimado, sem direito e
Razão, que enlouquece para
Preservar a certeza que
Deveria ser outro o que
Move as suas entranhas.

Perdeu a possibilidade
De se querer. Tem só raiva
E dor, o indisciplinado!

A pena e a fuga

Deus, cai como chuva e embebe minha consciência
Com grandes gotas da graça, à molhar meu medo e covardia,
A dissolver e lavar a ressecada liturgia,
A desagregar os blocos bem assentados do saber
Em que a fé todo tempo subsistia.

Que essa água infiltrasse nas eternas frestas da esperança
E encharcasse a lei, rude e fria como a pele do granito
Áspero, gravado à profundos golpes de amargo cinzel
Que dita, poderoso, arrogante, sobre a lousa gélida da certeza,
Meu reverente compromisso com a tristeza.

Que a água esquecesse sua natureza, e quebrasse
O atônito monolito, indefeso em sua dureza
Desesperado, ao ver que a água, jorrando em beleza
Golpeia os veios da pedra, clivando a face da inscritura,
Surgindo nova iluminura, sem as marcas do que era.

Neste dia, no cerrar dos olhos e no expirar da dor
Trancada nos pulmões da alma, morreria o triste no breve sopro
E nasceria o feliz no fresco inspirar do novo vento
A rasgar o silêncio da morte, a invadir os nichos e varrer
As lascas da velha maldição, negrume morto pelo amanhecer.

Um novo homem haveria, eterno sonho e projeto
Que nunca chega a ser, pelo medo do primeiro morrer,
Pelo medo do primeiro querer, pelo medo do primeiro esquecer
Como é seu viver, e se entregar à este desvario
Como a folha do salgueiro, deslizando pelo rio seu curso inteiro.

Volto a clamar, Deus cai sobre mim então como raio
Desprovido da fluidez e suavidade da água, da sua calma.
Percorre com violência minhas estruturas, e transforma
Em afogueadas achas as duras pilastras da inércia, e do medo
De ser livre, fazendo cinza a moradia que me deprime.

Mesmo o apenado almeja a liberdade longe dos portões
Seja no pagar da culpa, seja no arriscar da fuga.
Por isso apressa, Deus, e faz brilhar na escuridão
A alegria, o desejo maior nesta escura cela.
Que ela vivesse por mim, e não que eu vivesse por ela.