domingo, 4 de agosto de 2024

Confissão


Confesso que desejo a morte 

Desejo desde sempre.

Pequeno, pressionei firme com braços retesados, uma longa lasca de madeira pontiaguda contra o peito. Forcei até não poder mais lidar com a dor, e hoje penso que se insistisse por mais tempo teria percebido o erro e me lançado contra o chão, ao invés de usar as próprias mãos. Estava engolfado pela certeza de não ser ouvido, de não ser querido, de não ser visto.

Bebi e me droguei até quase parar o coração. Canos de armas municiadas pressionadas contra o palato, explorando o descanso de gatilhos. Ensaiei colisões de motocicleta em viagens. Seringas e agulhas repletas de ar, de venenos, de fármacos macerados.

A dor avoluma, expande, arregimenta os músculos e a consciência, como prenúncio do êxtase. Se forma a tempestade, girando dentro do peito, silvando nos ouvidos, gravita lenta para baixo escorrendo pelos pulmões, estômago, pelas costas. Se concentra na base do abdômen e preenche os genitais. Alí se detém, anestesiando-os.

Essa dor não se represa, não há barragem à ser repleta. Se transforma lenta em cinza e alcatrão, a manchar e contaminar as paredes internas do ventre e genitais, com tristeza e desespero.

Queria que ela arrebentasse, como um gozo. Mas quando não há o objeto desse êxtase, onde gozar?

Querer morrer é querer jorrar a dor que nunca explode. A repetição dessa tempestade impotente destrói dia a dia minha imagem, minha vontade, a esperança.

Um filme visto ainda muito jovem, reverbera mesmo hoje na memória. "The Gypsy Moths", com Burt Lancaster e Gene Hackman. Um paraquedista deprimido, amargurado, que escolhe viver amores complicados, divididos, fadados ao término. Em cada apresentação seu salto retarda cada vez mais o acionamento do paraquedas, até o dia que se deixa bater no solo; sem freios, sem arrependimento, sem mudar de idéia.

São imagens, falas e ruídos que me acompanham.

Assim confesso que desejo morrer... o filho de meus pais.

Não eu.