Ao toque era fresca e agradável, volumosa e tesa pelas chuvas mais frequentes deste ano que infundiram generosamente por seu interior, trazendo-lhe um vigor invulgar, esperançoso. Nas ditas bordas, agora mais objetivamente, despontavam ínfimos espinhos translúcidos à primeira vista tenazes, mas que ao toque demonstravam-se como cálidos afetos de um bom amigo. Deixando por um instante a proximidade das mãos, o olhar mais afastado sobre a folha revelava a intensidade de seu matiz peculiar, degladiando vigorosamente contra o conjunto simplesmente verde de toda a planta. E vencia; inapelavelmente vencia.
Com um profundo e satisfeito suspiro levantou-se dos joelhos o padre que passara boa parte daquela tarde naquele fresco recôndito, cercado pelas suas paixões as árvores, e que havia descoberto como o poeta a palavra certa, aquela singular folha. Sua fronte brilhava pelo suor do esforço em manter-se naquela posição, mas mesmo esse brilho não se comparava de forma alguma com o prateado de seus olhos, diante de tão bela descoberta. Era como se promovessem o encontro do apaixonado com a paixão e deles extraíssem a energia da própria vida, resultante do amálgama.
Eram nesses momentos que o clérigo perdia a exata noção entre o que era Deus e as coisas, o criador e o criado, o mantenedor e o sustentado. Diante daquela folha, embebido em sua paixão, já não se lembrava se ali estava pela necessidade de Deus ou pela necessidade de conhecer Sua face estampada na perfeição das coisas. Como era bom estar ali! Admirava a quietude essencial, sem alardes das árvores, sua imobilidade. Suas espécies, apesar de algumas conterem poemas sublimes como a folha de seu arrebatamento, eram sempre iguais, todas igualmente belas, todas igualmente altas, igualmente perfumadas, igualmente cobertas, assim eram todas elas.
Seu olhar buscou o horizonte e franzindo o cenho, como se o peso do corpo relembrasse a humanidade de sua missão, logo o prateado das órbitas envelheceu diante da memória de sua paróquia. Num longo e circular movimento declinatório seus já baços olhos encontraram a ponta dos dedos emergindo terrosos das puídas sandálias. E ali ficaram por um incômodo minuto. Cerrou as pálpebras para não chocar o belo lugar com a dor de seu olhar e desejou ardentemente que Deus o tivesse feito camponês e não guia dos homens. Como era suplicioso para ele retornar à sua missão!
Não porque não amasse os homens, nem porque não identificasse a carência humana pelo seu amor e o de Deus. Ele sabia que podia ajudá-los. Entendia-se até privilegiado pelo fato de perceber estas coisas e sentia que devia fazer algo por eles. Tinha se preparado para isso, aceitado imposições e preceitos algumas vezes interiormente questionados, mas tudo fizera por amor ao ser humano e o desejo de torná-lo melhor. Tudo aprendera para despertá-los, todos os métodos e estratégias, todos os argumentos e sua defesas; confrontara o próprio Deus e O questionara a respeito disso. Reuniu este arsenal e se lançou à batalha. Perdeu. Atonitamente.
Descobriu em dor que não bastava amar, se envolver, se dar e se deixar gastar. Viu que mesmo a mais poderosa e inquestionável verdade pode mostrar-se inútil, descartável; que a mais bela forma de amar pode ser rechaçada e esquecida. Foi devastado pela onipotência do não. Entendeu que o amor, expressão da alma, tem um limite material. O próprio homem. Ele pode calma e inquestionavelmente abjurá-lo, apenas dizendo não. Diante da mais poderosa força existente no universo, esta pode simplesmente ser soprada com um desdenhar de ombros.
Não. palavra última. Encerra nela mesma toda sua ação e força, sua autoridade, sua soberania sobre todas as coisas. Nela não existe recurso nem razão. Não pode ser negociada, subestimada, ignorada. Quantas vezes tinha sido obrigado a confrontar-se com essa faceta, que é o cheiro característico do homem. Todos os seres tem o seu odor emblemático, mesmo os seus amores de raízes, porém o mais marcante eflúvio humano é a sua capacidade de descartar sua natureza e necessidades ao negar a oferta de amor.
A lembrança disso trazia ao padre sensações que não queria que ficassem impressas em seu interior. O que mais prezava era o desejo de manter-se inocente e alheio, ao jogo de xadrez que o ser humano chamava vida. Um aperto doloroso fendeu seu peito do pomo ao esterno, pois já se aproximava a hora do serviço.
Arrastando os passos dirigiu-se à capelinha que estava próxima de seu paraíso particular e após persignar-se, sem ousar levantar os olhos, entrou no velho confessionário de madeira escura. Era a mortalha de sua alma. Logo sentiu a madeira do genuflexório ceder e estalar pela acomodação de alguém ao seu lado. Pela grade podia sentir o perfume da mulher e ficou esperando o dito. "Padre, perdoa-me porque pequei".
Com as mãos espalmadas sobre o grave rosto, deixou sua consciência flutuar pelo campo até a presença daquela folha. Se arrojou sobre ela, penetrou suas nervuras, se perdeu em seu interior. Já não era ele, mas ela. E pôde então sorrir no apertado cubículo enquanto ouvia a voz. Somente assim podia continuar.
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